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Última Fileira crítica de cinema
Crítica · Ficção científica, Terror

Frankenstein

2,0/5

Escrevi um comentário sobre Duna (2024) em que para mim ambos os filmes do Villeneuve eram como um macaron, citando: “um doce que é famoso (vive aparecendo nos realitys culinários), mas que eu mesmo, nunca tinha provado. O Doce é lindo, quando comprei achei lindo como um todo, a parte de fora, recheio e etc. Você vê a dedicação de quem fez aquele doce, mas ai depois de tanta expectativa, quando prova, o doce é super “normal”, nada demais, não é ruim, mas apenas normal. Continua sendo lindo, mas não passa disso.”
E temos aqui para mim, mais um caso de macaron cinematográfico, nessa caso, o sabor é ainda pior…

Sou fã de toda a mitologia de Frankenstein, reli o livro tem poucos meses, e até fiz uma mini maratona de adaptações, e estava bem ansioso para essa do Guillermo del Toro, que já disse em várias entrevistas, que é sua história favorita. Mas realmente não consigo entender a maioria das decisões criativas aqui.

Não acho que um filme que é uma adaptação, deve ser julgado com base em sua obra, e sim ser jugada como uma obra independente e única. Mas para mim, tudo o que foi alterado aqui, foi para pior, algo que eu realmente não consegui entender, ainda vindo mais de um “fã”, como se diz Del Toro.

O destaque vai para aquilo o que o diretor sabe fazer de melhor: Design de produção. Aqui toda a ambientação, figurinos e etc, são ponto alto do filme, destaque para mim das roupas da mãe do Victor, e também os caixões de seus pais, com um contraste de cores lindíssimos.

O “Castelo” do Dr. Frankenstein é um show a parte, com um visual único e que ainda é paramentado com grandes “baterias” verdes e todos os apetrechos do cientista, criam um ambiente quase “Steampunk”.

A fotografia também não deixa a desejar, com planos belíssimos e composições bem elaboradas, temos sempre um mundo fantástico, mas ao mesmo tempo cinza e frio.

Mas parece que del Toro passou boa parte do seu tempo de trabalho nesse filme focando no visual, e esqueceu aquilo que é o pior problema do filme: O Roteiro. O filme começa bem, com toda a introdução de o por que Victor ser obstinado, com o seu pai (o sempre ótimo Charles Dance) e como ele ficou obstinado em não aceitar a morte da mãe.

Mas logo o filme começa a tomar decisões que são as quais para mim, jogam toda a sua beleza pelo ralo. Victor consegue financiamento para o seu projeto, e consegue ter sucesso, usa obstinação teve fim e ele conseguiu o que queria. Durante a noite principal em que executa o ato final de dar vida ao monstro, um acidente acontece e que resulta na morte do personagem de de Christoph Waltz, Harlander, mas ele decide mesmo assim, não parar e continuar com o experimento. Por fim, ele consegue e tem êxito. Vejamos, temos um experimento que deu a vida a um ser montado com pedaços de diferentes pessoas mortas, em que seu criador passou sua vida obstinado em conseguir, e que literalmente alguém morreu no processo, mas ele simplesmente resolve abandonar a criatura e todo o projeto, pelo simples fato de ela não ser tão racional quanto ele queria, sendo que ela só repete o seu nome “Victor” e mais nenhuma palavra, sendo esse uma das conquistas científicas mais importantes da história.

Victor passa o filme inteiro sendo construído como um homem desprezível, e totalmente egoísta, só pensa em si mesmo e em realizar seu projeto, e ao dar vida a criatura, ele não se vê arrependido por ter criado um monstro, ele não vê problemas em maltrata-la afim de conseguir que ela demonstre algo a mais no sentido de ser um ser consciente. Mas simplesmente larga tudo por que “não lhe convém mais”, como se não fosse um cientista que não sabe-se que tal experimento demandaria muitos anos de estudo e aperfeiçoamento.

Se fosse apenas mostrado que ele se arrependeu e viu que criou um monstro (mesmo que esse seja o objetivo, aqui fica muito mal desenvolvido) e deseja destruir tudo para isso não se repetir, tudo bem, mas ele chega até mesmo a desistir e tenta voltar atrás, mas sem sucesso.

Vamos então para a história de Elizabeth, que aqui teve o papel mudado de prima de Victor, para sua cunhada, que é mais uma alteração que para mim não faz sentido. Será que del Toro achou que não ia pegar bem mostrar um interesse romântico entre primos? E então a melhor solução para ele foi a de Victor tentar roubar a mulher do próprio irmão?

Mas isso é um pequeno detalhe comparado com o fato de que Elizabeth demonstra um afeto, que talvez seja até mesmo amoroso, pela criatura. Mas é algo completamente gratuito, quase algo como um “amor a primeira vista”, sendo que eles praticamente não tem nenhuma interação. Não veria problema nessa narrativa, se ela fosse bem desenvolvida, mas não tem nada aqui, apenas uma mulher que já é noiva e vai se casar, se apaixonando por um monstro a primeira vista, sendo que esse era teoricamente para ser um monstro “que as pessoas ficavam horrorizadas apenas de olhar para ele”.

E ai vamos para algo que também me incomodou muito, o visual do monstro. É certo que temos na cultura pop como um todo, um visual que é baseado no icônico monstro do clássico de 1931, de James Whale e que nada se assemelha ao visual descrito pela Mary Shelley na obra original e que sim. Mas algo que é base da história é que a criatura era tão horrível que o simples fato de olhar para ela, as pessoas já ficavam ensandecidas. Mas aqui, por mais “estranho” o visual do monstro, ainda parece ser um humano (tanto que Elizabeth se apaixona pelo monstro), e não justifica muito as pessoas terem como primeira reação, atirarem nele só de olhar (mesmo que tenha um diálogo que eles não sabem o que era, comparando até mesmo com um urso, o que não faz sentido com o visual da criatura). Ainda assim, Jacob Elordi está sim muito bem, na verdade, acho ele uma das melhores coisas do filme. O problema é mesmo o que lhe é entregue para trabalhar.

E ai entramos em outras escolhas criativas do filme em relação a criatura que não faz nenhum sentido e foram o que mais me tiraram do filme. Temos um diálogo em que se deixa implícito que descobriram o sistema que seria o responsável por levar “a vida” para todo o corpo, e que ele também seria responsável por algumas funções como a cura, o que meio que justificaria o monstro se regenerar mais rápido do que o normal. Mas o que temos aqui é quase um Wolverine 2.0, em que além de se regenerar em uma velocidade absurda, temos algumas coisas que não fazem nenhum sentido. Por mais que ele seja evoluído, um ser mais forte que o ser humano normal, ele ainda é feito de pessoas, carne e osso, e nenhuma carne e osso no mundo resistiria a uma explosão de dinamite colada no peito, sem que isso resulte em pedaços voando. Além de uma sobre força que é super exagerada e não faz sentido (novamente, músculos e ossos humanos) conseguir empurrar sozinho um navio de toneladas. No livro temos o sub-titulo de “prometeu moderno”, aqui poderia mudar para “x-men moderno”.  E não vejo nenhum beneficio nessas mudanças de “poderes” na criatura que não seja “vai ficar legal na tela”.

A parte da história do monstro, com todo o questionamento de “quem eu sou?”, “o que eu sou”, “quais os meus objetivos” e etc, são justamente a melhor parte da obra original, e aqui até são sim bem aproveitados e novamente Jacob Elordi consegue entregar, principalmente no olhar, todo a angústia do monstro. Mas a partir desse momento, o que seria todo o desenrolar dessa história parece que foi feito as pressas, quase como se del Toro percebesse que já se foram quase duas horas de filme e tem que terminar de contar tudo o mais rápido possível. O que prejudica muito o peso do final da história, por que temos um Victor que é colocado o filme inteiro, como um egoísta, mentiroso e com zero escrúpulos, que em momento nenhum da trama demonstra estar “evoluindo” como pessoa, para no fim em um curto diálogo dizer “eu sinto muito, eu realmente me arrependo”, simplesmente horrível.

Contando ainda com um dos roteiros mais expositivos de toda a carreira de del Toro, “Você é o verdadeiro monstro“, Frankenstein é um projeto que parecia ser o casamento perfeito (um clássico da literatura com um fã da obra e que é famoso justamente por fazer filmes com narrativas semelhantes), mas que assim como Elizabeth, o casamento terminou em tragédia.

2,0/5
Nota do Última Fileira
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