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Última Fileira crítica de cinema
Crítica · Aventura, Drama

Walkabout

4,0/5

Nicolas Roeg faz em Walkabout um coming of age cru, visceral e político.
Aqui vemos dois irmãos que vem de um mundo de concreto, conforto e luxo. Um mundo em que mesmo com tudo isso, um pai pode perder a sanidade e tentar contra a própria vida, assim como é mostrado e ainda tenta matar os filhos no processo.
Perdidos no deserto australiano, os jovens precisam sobreviver com o pouco que tem: algumas coisas que sobraram de um piquenique, uma toalha de mesa e só.
A garota, mais velha e responsável pelo irmão mais novo, mostra uma força enorme ao lidar com a situação e ainda consegui acalmar o irmão em que está na fase que tudo é uma constante brincadeira.
Tudo mudo ao encontrarem um jovem aborígene que esta em um processo de amadurecimento chamado walkabout, onde tem que sobreviver sozinho no deserto em um rito de passagem para a vida adulta.
A jornada então, passa a ser em grupo e eles mesmo com a barreira do idioma, logo vão se entendendo e criando intimidade. E em relação ao idioma, é curioso como a garota acaba meio que de principio quase que ignorando o indígena, tratando ele quase como uma curiosidade, enquanto o seu irmão, ainda criança, o trata apenas como mais um amigo, que logo já aprende a se comunicar. Uma visão interessante sobre como as crianças consegue não só aprender rápido, mas se adaptar.

Natureza e sobrevivência 

Temos durante todo o processo cenas reais de caça, e logo no começo uma cena de caça bem brutal de um canguru. E ao começar a cortar a carne do animal, e assim que ficamos chocados com aquilo, o diretor corta para uma cena de um açougueiro cortando uma carne, e acho isso uma jogada genial, pois por mais que fiquemos assustados por ser um canguru, ainda é um animal sendo morto para uma pessoa se alimentar, e que perdemos o contato pois a carne chega pronta nas prateleiras, mas o processo é o mesmo.
Sexualidade e descoberta do corpo
Desde o começo temos a câmera acompanhando o corpo da garota, quase como se buscasse olhar aos poucos sua sexualidade aflorando, seja um pedaço da calcinha aparecendo, ela trocando de roupa, em posições que podem indicar algo mais sexual e etc. Fica claro que vamos acompanhando aos poucos o desenvolvimento de sua sexualidade e descobrimento do seu corpo, ao conviver por aquele período com o aborígene, que tem uma visão de sexualidade e corpo, totalmente diferente da nossa sociedade.
E como se aos poucos no filme, ela fosse se despindo cada vez mais e se libertando de seus tabus. E é lindo como o filme não trata isso de uma forma pejorativa, mas como um sinônimo de libertação. Logo, tomar banho nua com os outros deixa de ser um problema. E ao chegar nesse ponto é como se estivesse realmente livre e pudesse ser quem é de verdade.

Sociedade e natureza

É interessante notar como em certos momentos o filme sempre mostra como a natureza e a sociedade moderna estão tão próximas uma das outras, mas ao mesmo tempo, tão distantes.
O aborígene está sempre caçando, sempre em busca da próxima refeição, e seja o que conseguir matar, em um instinto de sobrevivência que não tem muito tempo para outras coisas.
Por outro lado, vemos pessoas sempre preocupadas em explorar aquele ambiente, desde cientistas meteorológicos, pessoas explorado os nativos para produzir souvenirs e etc. Mas são todas que mesmo que estejam naquele meio, não tem a urgência de sobreviver como os nativos, como sociedade moderna, tem outras preocupações, quase sempre focadas na exploração.

Temos também uma cena em que o garoto começa a brincar com os destroços de equipamento de uma mina desativada, é quase como se víssemos que com o tempo, a natureza sempre vence.

Chegamos então em um momento em que o jovem entra em uma espécie de ritual de conquista e começa a fazer uma dança de exibição para a jovem, essa que sem entender o que esta acontecendo acaba ficando assustada e com medo da situação, o que faz com o que o jovem se sinta rejeitado e que tenha falhado, não restando mais nenhuma opção para ele.

No fim vemos a jovem já de volta a sua casa, cortando carne assim como tinha aprendido e então seu companheiro chega e começa a falar sobre seu trabalho, quando a jovem se pega lembrando do que viveu, e corta para uma cena deles nadando livres, nus, e felizes em um lago. O que seu companheiro, em um dia normal de trabalho, poderia ter de mais interessante para quem já viveu algo tão único?
Um filme sobre amadurecimento, sobre descoberta do “Quem sou eu?”, aprendizado e a lidar com dificuldades. E por mais que o filme seja bastante centrado na garota, é interessante notar que o garoto também passe por um processo semelhante, como quando é mostrado que ele que antes ficava perguntando o tempo todo pelo pai, na verdade sabia que ele tinha morrido e também tentando matar eles, é como se a partir do momento que ele verbalizasse isso, passasse a aceitar aquela dura verdade.

4,0/5
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