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Última Fileira crítica de cinema
Crítica · Terror, Thriller

Thesis – Morte ao Vivo

4,0/5

O quão fascinados somos como sociedade pela morte e violência?

Tesis de Alejandro Amenábar, questiona isso em um filme que foi lançado há 30 anos, época em que os VHS ainda eram a principal mídia física (o formato de DVD tinha sido lançado pouco tempo antes, mas ainda era pouco difundido), e o meio onde a maioria das pessoas consumiam obras de áudio visual. Com o sucesso de filmes de terror, principalmente no home vídeo, produções caseiras e amadoras começam a surgir aos montes.

É nesse período que começa surgir os “filme snuff” em que mostravam cenas reais de violência e morte, com cenas de tiroteios, assassinatos, execuções de terroristas e todo o tipo de violência possível. Em Thesis a protagonista, Ângela (Ana Torrent) é uma estudante de cinema e está fazendo seu trabalho de conclusão voltado justamente para esse tipo de vídeo e sobre a violência no cinema em geral.

Por mais que Ângela se diga sempre horrorizada com aquele nível de violência, é curioso notar como ela parece sempre estar se fascinando com o que vê, é como se a curiosidade a consumisse junto a culpa de ver tais cenas.

É curioso notar como o diretor joga com essas nuances de questionamento da violência, em que a protagonista basicamente se vê nessa aflição de consumir tal material, ter noção do quanto desumano e horrível eles podem ser, ao mesmo tempo em que se questiona o quão fascinada ela vai ficando cada vez mais por esse tipo de conteúdo e ao mesmo tempo, nós espectadores estamos nos vendo ansiosos para ver a próxima morte do filme, e muitas vezes curiosos para que o filme mostre o que eles estão vendo nas fitas.

O filme faz esses questionamentos sobre o consumo de violência e a banalização da mesma, sendo de 30 anos atrás, e o hoje, tais tipos de vídeos que estavam na época escondidos em porões e caixas fechadas,  em que o simples fato de possuir acesso a tal material era mal visto, hoje, com apenas alguns cliques você consegue facilmente encontrar na internet coisas muito piores. Esse fascínio pelas imagens violentas, sempre existiu, a grande questão é como ela evoluiu e chegou no nível que estamos hoje. O gore virou todo um gênero de terror, com seus fãs fervorosos. E não sou hipócrita de falar que como o gênero de terror e gore no geral não seja fascinante, eu mesmo consumo muito desses filmes e acho inclusive que temos belíssimas obras com o tema, o ponto é o quanto isso está nos transformando como sociedade.

A grande questão é a desumanização, nós como sociedade, vamos perdendo o tato para o que é ou não demais, o que é sofrimento alheio, e no fim vira tudo entretenimento, não é comparando filmes de ficção com imagens reais violentas, mas o que todo esse excesso de imagens violentas faz com nossa mente, de como vamos nos desumanizando, e você pode falar “Besteira, consumo tal tipo de filme e não sou afetado por isso”, mas eu falo justamente pelo geral, como sociedade, pois estamos relativamente mais acostumados a ver e consumir a violência. Se formos pegar um vídeo real de um acidente, ou mesmo assassinato, que hoje é comum e postado nas redes sociais até mesmo por canais jornalísticos, se voltarmos algumas décadas, como sociedade iríamos nos sentir horrorizados com a divulgação de tais imagens.

Um sintoma comum de notar hoje em dia, é como ajudar quem sofre uma acidente não é mais o de prontamente ajudar, e sim puxar o celular e conseguir registrar e divulgar o quanto antes aquelas imagens, pois novamente, estamos dessensibilizados como sociedade. Não enxergamos um ser humano em que tem família e que não gostaria de ver as imagens de seu ente querido sofrendo rodando a internet, mas apenas uma imagem curiosa e que muitas vezes pelos comentários, podendo até ser “engraçada”.

E o pior é justamente aquilo que é justamente tratado aqui em Thesis, as imagens violentas não são produzidas apenas por que temos um psicopata querendo aproveitar enquanto mata suas vítimas (também por isso), mas por que foi descoberto uma forma de monetizar tais atos, afinal se tem quem consuma, tem quem paga. E no fim tudo vira produto, até mesmo a violência, e o simples fato de termos vídeos reais em redes sociais é uma prova disso, por mais que você não pague diretamente por aquele conteúdo, o simples fato de consumir estando na plataforma (sendo a retenção o principal objetivo delas) já é você consumindo um produto e gerando lucro do outro lado.

Além do questionamento moral, Alejandro Amenábar faz um bom uso de câmeras e tem cenas com um planejamento de mis em cene que são realmente muito boas, a ideia de a câmera ser um olho que observa tudo é muito bem utilizada aqui, impressionante saber que é o primeiro longa do diretor.

Ana Torrent está muito bem como Ângela, consegue passar toda a mistura de sentimentos que sua personagem sente, medo, fascínio, desejo e curiosidade. Ela consegue transitar por esses sentimentos de uma forma muito natural.

Agora o personagem Chema (Fele Martínez) é o para mim o ponto fraco do longa, sei que existem sim pessoas como ele que são ávidos consumidores desse tipo de conteúdo, fascinados pelo terror, gore e até mesmo o Snuff aqui representados. Mas o personagem para mim ficou muito caricatural, além de ser insuportável.

No geral, um belo filme, com questionamento interessantes e também uma direção que chama a atenção. Além dos questionamentos que citei anteriormente, ainda temos aqui um bom exemplar de suspense, cenas muito boas como a dos corredores, a cena da protagonista como possível vítima e todo o personagem Bosco e toda a fascinação que Ângela tem por ele, mesmo sem ter certeza se ele é ou não o assassino, o simples fato de ele representar isso, a fascina, assim como a violência no geral, ele é como a personificação do que a mais intriga, dessa mistura de sentimentos, medo, desejo, horror…

4,0/5
Nota do Última Fileira
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