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Última Fileira crítica de cinema
Crítica · Drama

Hamnet

5,0/5

O Homem comum

Um filme que fala sobre a origem de uma das obras mais famosas e influentes da dramaturgia, criada por aquele que é talvez um dos autores mais influentes de todos os tempos, William Shakespeare, que por si só já é um mito, quase uma entidade quando nos referimos aos grandes gênios da humanidade.
Mas em Hamnet de 2025, vemos uma decisão curiosa de praticamente deixar o mito do gênio de lado (O nome completo “William Shakespeare, só é dito pela primeira vez quase no fim do filme” ) e focar naquilo que nos mais conecta com as pessoas, histórias de pessoas, de amor, dor e luto, o que foi a melhor coisa desse que para mim já é o melhor filme do ano.
O filme começa com uma cena linda da Agnes deitada na mata, no meio da floresta, quase como se integrasse na natureza, fizesse parte dela. E isso é posto como algo importante de sua personalidade durante todo o filme, uma mulher forte, que tem uma conexão direta com a natureza, lidando com animais, plantas e até mesmo a medicina por meio de ervas e até mesmo uma suposta clarividência. O que não poderia resultar em outra coisa, considerando aquela época, se não a de que ela tem a fama de ser uma bruxa (O que não muda muito hoje em dia, com uma sociedade que ainda tem aversão a mulheres fortes e que não dependem dos homens para tudo).

Propósito

O relacionamento de Willian com Agnes é bem desenvolvido, você vê o amor e respeito que tem um pelo outro, e eles acabam construindo uma família. Mas tem algo que o impede de ficar junto de sua família, que é a sua busca por um propósito.
Ele trabalha com o pai em uma fábrica de sapatos, mas logo entende que aquilo não é o que ele deve fazer, gosta de escrever, de arte, mas tem que sustentar sua família.
Agnes identifica que seu marido está perdido e fala com seu irmão que ele tem que levar William para Londres, que lá ele vai encontrar o que busca.
E é uma decisão que dita todos os outros rumos do filme e da história de William Shakespeare, pois ao sair ele vai fazer sapatos para a companhia de teatro, o que lhe concede acesso ao ambiente que o consagraria.
Mas isso gera um afastamento da família, enquanto ele constrói seu legado, ele começa a se tornar um estranho para a própria família.

A arte como sentimento

Agnes tem gêmeos e ao crescerem, Hamnet em uma tragedia acaba falecendo. E mesmo que tenha sido avisado e estivesse voltando para casa, o fato de não chegar a tempo (o que é constantemente lembrado por Agnes “você não estava aqui”), o fazem se afastar ainda mais.
É engraçado, mas tinha citado em meu texto de Sentimental Value, sobre como algumas pessoas só conseguem se expressar por meio da Arte. E aqui fica claro como William não consegue expressar sua dor, seu sentimento de culpa e todos os outros sentimentos que o assolam. Isso faz com que Agnes o veja como alguém que trocou a família pelo trabalho e fama.
Até o momento em que ela fica sabendo que William está lançando uma nova peça, uma tragédia com o nome de seu filho.

Ela fica abismada pois acredita que o marido está usando o nome do filho para se promover vai para Londres para ver de perto a peça. Ao chegar, acha absurdo as pessoas falando o nome de seu filho constantemente, uma falta de respeito ao seu luto.

E então, chegamos aquela que é talvez a uma das cenas mais lindas do ano, William Shakespeare mostra como em seu texto, demostra tudo aquilo que não conseguia expressar pessoalmente a sua esposa, toda sua dor e luto estão ali, sendo representados na frente de Agnes, e então, ela percebe isso, entende todo o trabalho do marido, vê ali um tributo respeitoso e emocionante a seu filho, e o olhar que ela faz para o marido, que sem dizer uma palavra expressa todo o sentimento de “eu entendi” e quase um “obrigado” é lindo e emocionante.

O filme se trata basicamente de uma tragédia, e em alguns momentos pode parecer que o filme quer nos fazer chorar a qualquer custo, eu normalmente não ligo para isso, mas de qualquer forma, acredito que aqui, por mais que tenha esse sentimento de “você precisa chorar”, é tudo muito bem apoiado, pelo texto, direção e principalmente atuações, que fazem tudo ser crível o que fortalece muito o filme.

Eu estou a um tempo defendendo que Rose Byrne em “If I Had Legs I’d Kick You” era a melhor atuação feminina do ano, mas o que Jessie Buckley faz aqui é impressionante, ela transforma Agnes em uma força da natureza. O que ela consegue expressar sem dizer uma palavra, com apenas olhares e movimento de corpo é digno de coloca nas grandes atuações da história.

Paul Mescal começa meio apagado, mas isso é mais pelo filme em si, pois o começo é muito mais voltado para Agnes, mas a partir de mais ou menos metade do filme, quando é necessário, ele entrega um nível absurdo também, para mim a melhor injustiça desse oscar é justamente ele não estar em ator coadjuvante.

Por último, um destaque para a fotografia do filme que é muito bem executada, e não só “uma fotografia bonita”, mas também muito bem realizada principalmente nos ambientes internos, com uma iluminação que está sempre trabalhando em conjunto com tom da cena que está acontecendo. Destaque para como muitas vezes quando Paul Mescal está em cena e o plano é como se fosse um palco de teatro, e que ele está frequentemente “saindo do palco”.

Ainda falta ver Marty Supreme, mas esse para mim já é o melhor filme do ano.

5,0/5
Nota do Última Fileira
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