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Crítica · Drama, Guerra

Parque da Punição (Punishment park)

Em cerca de 250 anos de história, os Estados Unidos passaram menos de 20 anos sem estar envolvidos em algum conflito ou guerra.
A segunda guerra mundial, foi um ponto de virada de chave, pois ali o EUA conseguiu implementar seu projeto de hegemonia global. E por meio de guerras e conflitos, o país vem se mantendo nesse posto. O que deveria ser algo completamente atípico, virou rotina.

E por mais que guerra para os EUA seja significado de expansão de poder, ou mesmo a manutenção deste, sempre temos o outro lado que é diretamente afetado, as vítimas dos EUA que ficam em seu caminho em busca do dito “bem estar global”, não vem assim tantos benefícios.

E muitas vezes, as vítimas são os próprios americanos. Na guerra do vietnan por exemplo, foi um dos períodos em que parte da população americana começou a ver que não se tinha um objetivo realmente benéfico naquilo, e o que estava acontecendo era um monte de jovens sendo enviados para a morte.

E é nesse período que se passa Parque da Punição, de Peter Watkins, um pseudo-documentário em que temos um país controlado por um regime que tomou conta do país e começou a burlar suas próprias leis. Logo no começo temos um contexto:

1970. A guerra no Vietnã está aumentando. O presidente Nixon decidiu fazer uma campanha secreta de bombardeio no Camboja. Há protestos públicos massivos nos Estados Unidos e em outros lugares. Nixon declara estado de emergência nacional e ativa a Lei de Segurança Interna de 1950 (a Lei McCarran), que autoriza as autoridades federais, sem consultar o Congresso, a deter pessoas consideradas ‘um risco para a segurança interna.

Com base nessa lei, pessoas que são consideradas possíveis ameaças ao EUA, em sua maioria jovens, são levadas diretamente a um julgamento em meio a um deserto. Esse local é o que recebe o nome do filme, o parque da punição. E assim começa o filme, acompanhando esses jovens que vão passar pelo suposto julgamento, vemos também em paralelo um outro grupo que já foi julgado e está cumprindo sua pena. Acontece que a medida que vai se desenrolando vemos que o julgamento é uma farsa e as sentenças por coisas pequenas, como por exemplo apenas incitar questionamentos e protestos em uma rádio, vão de dezenas de anos a prisão perpétua, Mas aqueles julgadores também oferecem uma alternativa, passar pelo parque da punição, e se conseguirem passar eles estão livres.

A grande maioria vai pela segunda opção pois acredita que aquilo é algo que elas conseguem passar, ao inves de perderem toda a sua vida atrás das grades.

E é aqui que vemos todo a grandiosidade desse filme e como Peter Watkins fez a melhor escolha possível ao fazer o filme no formato que simula um documentário. Usar também no elenco, a maioria de “não atores” e várias outras decisões, fazem o filme ficar em um nível de realidade que me fez me duvidar várias vezes se aquilo não era real.

Na história, temos um canal inglês fazendo uma reportagem/documentário naquele local e pelo ponto de vista deles que acompanhamos o filme. Os militares e policiais ali presentes, querem meio que passar a ideia de que aquele é um julgamento justo  e não tem nada de errado acontecendo ali. Mas é curioso notar como a medida que os policiais vão por exemplo se tornando mais confortáveis, começam a mostrar todo o seu treinamento, uso e poder das armas e etc, que aquele é muito mais um “parque da execução”.

Toda a cena no deserto com os jovens fugindo são muito bem feitas e passam uma tensão real, mas para mim o melhor do filme está justamente nos julgamentos. Ali vemos a força de pessoas que estão a margem da sociedade, que querem apenas um país justo e por serem contra os ideais de quem está no poder, são tratados como os piores dos criminosos.

Toda a parte técnica funciona muito bem aqui, desde essa fotografia mais crua, simulando o documentário, a trilha, e principalmente a montagem, que é o ponto alto do filme para mim, pois consegue alternar entre os que estão fugindo no deserto com as cenas de julgamento de uma forma que te faz ficar ainda mais tenso e apreensivo.

Os “juízes” ali presente conseguem passar todo o tipo de sensação, daquele que gera um ódio pois sabemos que é aquele pior tipo de ser humano, o conservador que se acha melhor do que todos que pensam diferente deles, a mulher que acredita que todos ali são delinquentes pois não seguem os padrões do que ela acredita ser “civilizado”.  Temos até um advogado de defesa, que está ali representando o quanto que quando o estado está nas mãos erradas e já te condenou, nenhuma lei vai poder te salvar.

Assistir esse julgamento me causou mais desconforto que muito filme de terror, principalmente pela ideia de que mesmo no mundo de hoje, décadas depois, é completamente crível ter algo do tipo acontecendo. Um sistema em que o presidente americano pode se impor acima das leis e direitos do país e ainda levar a julgamento e prisão todos aqueles que são contra ele? Parece muito o sonho realizado do atual presidente americano.

Parque da punição é um filme denso, que te deixa apreensivo, com uma ideia tão absurda e ao mesmo tempo tão possivelmente real, que me fez ficar em um nível de tensão que a tempos não ficava. Um retrato de um país que por mais que esteja sempre progredindo financeiramente e em seu poder sobre o mundo, parece que em se tratando do que tem de pior ele sempre está piorando, e chegamos em um nível em que um filme simula um cenário absurdo, conseguimos imaginar isso sendo implementado hoje, cinquenta anos depois e com certeza teria uma parcela muito grande de apoiadores.

 

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