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Última Fileira crítica de cinema
Crítica

Cemetery Man

4,5/5 Nota da Última Fileira
Ano
1994
Cemetery Man

Desde o lançamento de Night of the Living Dead do Romero em 1968 e de Dawn of the Dead, dez anos depois, o gênero de filmes zumbis passou por inúmeras transformações, já tivemos seu auge em que era uma época que zumbis se tornaram ícones da cultura pop, com lançamentos constantes de filmes, jogos, série e etc.

Os zumbis foram utilizados como metáfora de todas as formas possíveis, sobre o consumismo desenfreado, crises existenciais, de como os vivos são mais perigosos que os mortos e por aí vai.

 

Vá embora, não tenho tempo para os vivos

Chegamos a um ponto onde começaram a surgir as comédias e as obras que tentam subverter o gênero que já vem mostrando um cansaço pelo seu uso excessivo.

E é curioso descobrir que um dos filmes mais subversivos do gênero é justamente um filme de 1994, período em que os zumbis clássicos ainda estavam no seu auge.

Cemetery Man ou “DellaMorte DellAmore”, no original (que é um nome maravilhoso levando em conta o contexto do filme) de Michele Soavi é um filme que leva o gênero de zumbis a um outro nível, misturando trash, comédia, paixão e todas as loucuras possíveis.

Dellamorte é um coveiro e gerente de um cemitério em uma pequena cidade na Itália, e tem além do seu trabalho habitual, o trabalho de matar novamente os mortos que ali são enterrados, pois por algum motivo que ele desconhece, após sete dias do enterro, os mortos voltam a vida, como zumbis.

Mas Dellamorte já está acostumado e essa é sua rotina, para ele é simples, basta acertar um tiro na cabeça dos zumbis. Algo que vemos que ele conseguiu se tornar especialista.
Ele ainda tenta avisar a todos sobre o que acontece em seu cemitério a noite, mas não conhece quase ninguém, não conseguiu passar pela burocracia de preencher documentos para fazer uma denúncia e  vive apenas com seu assistente que apenas repete o próprio nome, tem apenas um amigo com quem conversa e o único livro que já leu foi a lista telefônica.

 

Em certo ponto da vida, você percebe que conhece mais pessoas mortas do que vivas

Dellamorte é um personagem muito bom, vemos toda a sua naturalidade em matar zumbis, como se fosse um trabalho qualquer e tem todo um ar de ser um clássico “herói de filmes de zumbi”. Mas tudo é subvertido e começa a ir para lados inimagináveis a partir do momento em que ela (Anna Falchi, em uma personagem que não tem nome no filme é apenas “ela”), aparece no cemitério durante o velório do seu marido idoso.

Dellamorte se apaixona à primeira vista e logo ali tudo começa a mudar. Ele a chama para mostrar um ossário e então temos ótimas cenas como um beijo por meio de um véu de luto, o desejo surgindo na personagem por ser fascinada por ossos e ter parte de seu corpo despido por um esqueleto.

Logo ao voltar ao cemitério, ambos se reencontram e o não se controlam e temos uma linda e gótica cena de sexo em cima do túmulo do marido da viúva, sob a luz da lua cheia e com pequenos fogo-fátuo rodeando o casal.

Tudo muda a partir do momento que durante o sexo do casal, o marido ressususcita e morde a sua antiga esposa, o que faz que o seu assistente Gnaghi, matá-la com medo de ela ter se tornado também um zumbi.

Tudo em Cemetery Man pode parecer com um filme simples e até meio tosco de terror de zumbis (a cabeça “andando” e atacando outras pessoas, a moto, o fogo-fátuo em que vemos os fios segurando as bolinhas de luz e etc), mas fica claro, pelo menos para mim que é meio que tudo intencional, onde o diretor brinca com o gênero de todas as formas possíveis, pois ao mesmo tempo que temos esses momentos trash, temos uma cenografia incrível do cemitério, uma maquiagem muito boa, com ótimas cenas de mortes, e uma fotografia digna de grandes produções.

Mas o principal em Cemetery Man está justamente em seus sub-textos, pois logo após a morte da personagem em que ele amava, temos ela logicamente voltando como zumbi e ele se apaixonando por ela novamente.

Claro que ela tenta comer ele e ela logo é morta de forma definitiva, mas isso não faz com que Dellamorte desista dela, e aqui temos uma série de questionamentos sobre amor além da vida, amor que te destroi (uma personagem deixa seu namorado morto se alimentar dela apenas falando “ele só quer comer”), e principalmente sobre como idealizamos as pessoas e em cima dessa idealização criamos pessoas que não são reais.

A partir da morte definitiva de seu amor, Dellamorte começa a ver sua amada em diferentes pessoas. E temos aqui algumas coisas curiosas, como por exemplo o fato de que ele ter perdido a amada durante o sexo, a próxima versão dela que aparece, diz que tem aversão ao sexo por ter sido abusada e que aceita ficar com ele pois tem um boato na cidade de que ele é impotente (um outro sub-texto interessante sobre masculinidade).
Dellamorte chega a pedir a um médico para o deixar impotente de verdade, o que o mesmo se nega a fazer, apenas deixando o temporariamente.
Mas logo ao reencontrar a nova versão da amada, essa diz que fez sexo com o seu chefe “da forma correta” e gostou disso, e por isso vai ficar com ele, fazendo nosso protagonista ficar novamente sem rumo.

A ultima versão que ele encontra de sua amada é justamente uma de uma mulher que se diz sedenta por sexo, em que eles transam loucamente, mas que logo ele descobre que é uma mulher que cobra pela noite que passaram juntos.

Temos então todo o processo de amor, amor na morte, desejo, desilusão e desesperança.

Temos ainda o relacionamento de seu assistente Gnaghi com a cabeça da filha do prefeito, a morte de todo um ônibus de escoteiros, e várias cenas absurdas e memoráveis.

E o melhor é a própria morte aparecendo para o protagonista e falando para ele deixar os mortos em paz pois eles são dela e se ele quiser que vá matar os vivos.

 

Parem de matar os mortos, eles são meus. Se vocês não querem que os mortos voltem à vida, por que não matam os vivos?

Dellamorte logo começa a surtar e matar pessoas de verdade, desde as pessoas que tiravam sarro de sua cara pelo boato de ele ser impotente a seu amigo e todos no hospital que está, pois ele acredita que foi traído.

Após ninguém acreditar que ele é quem mata as pessoas, nem mesmo o chefe de polícia o vendo sair da cena do crime com arma em punho, acredita e diz que ele é esperto por já estar armado e pensando em defesa. Dellamorte decide fazer o que nunca fez: Sair daquela cidade e não voltar mais.

Mas ao sair, ele logo percebe que não existe mais mundo além daquele, pois ele está preso, preso em uma vida que mais se trata de morte, preso em um ciclo de vida e pós-vida, pois ele não conhece e nem sabe viver outra vida que não seja aquela.

 

“Eu devia ter imaginado. O resto do mundo não existe.”

Engraçado, grotesco e poético, Cemetery Man foi uma das maiores surpresas do ano até agora, um respiro no gênero de zumbis e que já entra para mim no topo da lista de melhores do gênero.

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