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Última Fileira crítica de cinema
Crítica · Terror

Carrie, 2026 – Quando até Mike Flanagan erra…

2,5/5

Uma obra deve funcionar por si só, independente de se é uma adaptação de outra mídia, se faz parte de outro universo ou algo do tipo.
Carrie é uma das melhores histórias de Stephen King, não é atoa que estamos vendo nada mais do que a quinta adaptação da obra. A obra trata de temas que são sempre atuais e relevantes e por isso tem sempre um impacto em quem a consome pela primeira vez.

Brian De Palma conseguiu entender muito bem a obra, e em seu filme de 1976 conseguiu entregar a melhor adaptação, que consegue trazer tudo o que a obra oferece sobre os mais variados assuntos, desde bullying, transformações no corpo de adolescentes durante a puberdade, as dificuldades de se passar por isso, fanatismo e até o ponto crucial de que se você forçar demais, consegue quebrar a “mais pura” das pessoas, e sempre acho impressionante como de Palma combina tudo com seu maneirismo e consegue fazer uma sequencia de um genuíno terror no final.

50 anos depois, e varias adaptações frustradas depois, temos Carrie de volta em um novo formato, pois apesar de o filme de 2002 ser pensado para ser originalmente um piloto de uma série, a série nunca foi para a frente e ficamos só com o filme. Por tanto, essa é a primeira vez que o livro é adaptado no formato de série.

E com 8 episódios, Mike Flanagan (que vem se consolidando cada vez mais como diretor de adaptações de terror), tem que preencher a história com muitas coisas novas que não tem nos livros e nem em outras adaptações.

E como tinha dito no início, não acho isso problema de forma alguma, pelo contrário, gosto muito de como algumas questões aqui foram atualizadas, principalmente como insere na história o uso dos celulares e redes sociais, mostrando como o bullying que existia desde antes da época do lançamento do livro, não só continua firme e forte 50 anos depois como pode tomar proporções muito maiores, afinal, o que está na internet, provavelmente vai ficar na internet para sempre. Temos toda a questão de se criar um perfil falso da Carrie e como isso vai tomando proporções maiores e saindo do controle.

Um outro fator interessante que noto é nesse novo comportamento de como o celular é um dispositivo que é quase como uma arma, que é tanto usada para defesa quanto para o ataque, algumas cenas me lembraram do filme Nightcrawler (o abutre) de 2014, onde o protagonista ao ver uma tragédia a primeira reação imediata era pegar sua câmera e ficar feliz por conseguir tais imagens. O filme com apenas 12 anos, nos fazia pensar como aquele personagem era desprezível, e hoje, noto que esse é cada vez mais a reação natural das pessoas, que é muito bem retratada aqui na série.

Ao presenciar uma tragédia a reação imediata de todos ao redor é sacar o celular o mais rápido possível e começar a gravar.
Enfim, toda essa questão de celular, mídias sociais e outros fatores que torna a população tão alienada é uma das melhores coisas da série.
Vi algumas pessoas reclamando por exemplo que a mãe da Carrie nunca usaria internet e um celular como usa aqui, eu já discordo e acho que é sim uma boa atualização também, pois é o que mais temos hoje em dia fundamentalistas e fanáticos religiosos utilizando as mídias sociais para poder espalhar suas “verdades”. Tenho vários outros problemas com a adaptação da mãe da Carrie aqui, mas já falo mais sobre isso.

O maior destaque da série, definitivamente é Summer H. Howell, a atriz que me surpreendeu imensamente quando descobri que já tem 22 anos. Jurava que devia ter no máximo entre 15 e 17, pois sua postura de “criança inocente” é extremamente convincente. Os momentos de ternura e felicidade de Carrie vivenciando momentos únicos em sua vida são belíssimos e a atriz manda muito bem.

Chegamos então na personagem de Emaline que é algo novo da série, não tendo nos livros e é impossível falar sobre ela sem dar spoilers.
Ela aparece como uma possível amiga de Carrie, aquela que é a única que a entende e incentiva. E em certo ponto da trama Emaline descobre os poderes de Carrie e não só fica super animada com isso como a incentiva a praticar e a desenvolver ele (em uma cena bem ridícula a lá “Stranger things”), mas logo temos a reviravolta de que câmeras mostram que Carrie estava o tempo todo falando sozinha quando estava com ela e aparentemente ela seria uma criação da mente de Carrie. Eu até gosto bem mais dessa ideia, mas logo somos apreciados com uma nova reviravolta e Emaline não só existe como também tem poderes, tendo a capacidade de fazer projeção astral, por isso só Carrie conseguia ver ela, eu não acho que acrescentar outros personagens com poderes seja o problema, mas a forma como é feito aqui é algo que destroí toda a construção narrativa da Carrie.

Emaline não é só a incentivadora dos poderes de Carrie, mas quem a está constantemente a incentivando a se vingar, a não deixar barato para aqueles que a maltratam, chegando no ápice de que após o grande momento da história (o banho de sangue de porco no baile), aquele que culmina na reviravolta completa da narrativa, Carrie passa de vítima para executora, ela chega em seu limite, é quebrada, um momento emblemático, pois assim como disse no começo do texto, ela mesmo sendo uma pessoa pura e inocente, chega a seu limite, mostrando que qualquer ser humano, quando não tem um ambiente seguro, de amigos, família e é acuado onde vai (Carrie sofre repressão na escola e em casa com sua mãe, não tem uma única base de apoio) pode quebrar e fazer coisas terríveis (uma clara e genial analogia a tiroteios em escolas), o que torna a obra completa, se não fosse o que aconteceu aqui nessa adaptação. Temos simplesmente Emaline sendo a responsável pelas mortes de todos, não só incentivando Carrie, mas literalmente pedindo para deixar ele tomar conta do corpo da Carrie e “Fazer o serviço sujo”.

Essa entra para mim na lista de decisões de roteiro mais estúpidas da história, conseguiram em pouco tempo destruir tudo o que vinha sendo construído para a personagem, para simplesmente poderem adicionar uma personagem nova que vai poder ser usada em uma continuação.

E ai entramos em outro ponto crucial para a total derrocada dessa adaptação, o famigerado “universo expandido”. Por mais que o próprio Stephen King tenha criado o seu, com varias citações de livros e personagens se cruzando entre suas obras e tudo culminando na junção de tudo em A torre negra, temos um ponto muito importante que com certeza os executivos dos grandes estúdios de hoje, sejam eles da Marvel, DC ou qualquer outra franquia com “universo expandido” não entendem é: O sucesso de Carrie e de outras obras como “O iluminado” e que Stephen King focou no desenvolvimento da história em si, e não no universo expandido. É primeiro criar uma ótima história, e por mais que esse seja o plano inicial e já tenha uma ou outra citação que indique isso, a história funciona por si só primeiramente e depois vai para uma expansão de universo.

Todas as mudanças de querer acrescentar novos personagens  “Iluminados”, com diferentes poderes, poderia ser isso, só uma pequena citação para depois de termos toda a história e desenvolvimento de Carrie, uma continuação com esse outros personagens. Mas a ideia de mudar tudo para poder fazer isso, foi das piores decisões, pois não só esvaziou o sentido da história, como torna a protagonista como apenas uma “Criança manipulável” e me fez perder todo o interesse nela.

Ainda tenho outras ressalvas aqui como a personagem Chris Hargensen, que deveria ser a “Vilã” da história, mas não me desce essa tendencia de querer justificar todos os atos de um vilão simplesmente por que ele está passando por coisas difíceis. Fica claro que a série quer “humanizar” ela, mostrar que por mais que ela seja uma má pessoa que comete atos que prejudicam a todos, ela está apenas reagindo as desavenças que passa na vida, pois perde a melhor amiga, família está quebrada, pai preso e falido e varias outras coisas que vão acontecendo e escalando e ela vai cada vez mais se tornando pior. Eu acho isso irritante, essa tentativa constante de justificar vilões, como se não fosse possível ter pessoas que são ruins justamente por que são assim. É super comum jovens que cometem atrocidades terem famílias estruturadas, serem bem tratados, terem toda a estrutura necessária e ainda sim serem os piores seres humanos possíveis.

Chegamos então na mãe da Carrie, que sempre foi um ponto crucial em “quem é Carrie e o que ela fez”, ela é uma das principais responsáveis pela quebra da protagonista, escalando cada vez mais seu fanatismo e punição de tudo o que a Carrie faz. Aqui ela vira uma mera coadjuvante, mais uma que tenta ser “humanizada” e perde todo o sentido da personagem. Ela não era uma pessoa que era ruim com a Carrie por simplesmente ser ruim, ela realmente acreditava que aquilo era o certo, que todos estavam errados, e que o que estava fazendo era para proteger sua filha do demônio. Aqui ela tem sim, esse papel de “proteger a filha a qualquer custo”, mas a parte do fanatismo religioso que era o que a definia como pessoa, fica de lado, chega ao ponto de que mostra que ela mal tem opiniões próprias, pois boa parte do que fala é apenas aquilo que aprendeu com o falecido marido.

Uma das grandes decepções do ano, Mike Flanagan sempre esta no meu radar como um grande diretor, sempre tento conferir o que ele vai fazer, mas aqui foi uma grande bola fora, praticamente tudo o que ele mudou na história foi para pior e isso não tem como defender.

P.s: De todas as adaptações essa é a que tem uma das cenas do baile mais fraca de todas…

2,5/5
Nota do Última Fileira
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